Esporte

Começou lá na Vila

Pelé não está suportando o calor de Nova York. Depois do trabalho intenso na Copa do Mundo da Alemanha, onde comentou os jogos para a RAI italiana e a cadeia alemã ZDF, além de fazer a coluna diária para a Mastercard, tirou férias com a família no litoral de East Hampton, nos Estados Unidos. Passou em Nova York na sexta-feira para resolver alguns assuntos e voltou imediatamente para a casa de praia. “Aqui não dá para ficar. Na praia está mais agradável. Ainda não me sinto descansado do trabalho na Copa“, diz Pelé, que acompanha as mudanças no futebol brasileiro.


Critica outra vez o comportamento da Seleção Brasileira – “Nunca vi a Seleção jogar com duas estátuas paradas lá na frente“ – e confessa que se surpreendeu com a escolha de Dunga. “Gostei. Todo mundo esperava alguém de mais nome, com mais experiência no cargo. O (Ricardo) Teixeira teve coragem de apostar no Dunga. Pode dar certo ou não. De qualquer forma foi uma coisa ousada. E isso é bom.“


Depois de acertar algumas previsões que fez para a Copa, principalmente a derrota do Brasil para a França, Pelé diz que está sendo chamado de “Mãe Dinah“. Mas em sua opinião não era difícil concluir que o Brasil acabaria derrotado. “Já tinha visto todos os jogos da França e todos do Brasil. Com aquele ataque, o Brasil não ia longe. Como não foi mesmo.“


Na sexta, falando de seu escritório por telefone, Pelé emocionou-se ao recordar o dia 8 de agosto de 1956, quando chegou à Vila Belmiro, com 15 anos. Depois que ele cruzou os portões do Santos, o futebol nunca mais seria o mesmo.


A chegada na Vila, por Pelé


A história começou um dia antes, lá em Bauru. Eu me lembro como se fosse hoje. Estava atrás da porta ouvindo a conversa entre meu pai Dondinho, o Waldemar de Brito (ex-jogador e treinador do time do Baquinho), o Athiê Jorge Cury (presidente do Santos) e minha mãe Celeste. O Waldemar e meu pai queriam me levar para Santos. Minha mãe não queria que eu fosse. Dizia que tinha de estudar, senão ia acabar como meu pai – um ex-jogador. Eu estava dividido. Queria ir para Santos mas também queria ficar em Bauru. Estava apaixonado pela primeira vez. Tinha uma namorada japonesa, a Neuzinha, e não queria deixá-la. No fim, meu pai e Waldemar de Brito ganharam e minha mãe, mesmo aborrecida, acabou me deixando ir.


Aí surgiu outro problema. Minha mãe lembrou que eu não tinha calças compridas para viajar. Só usava calças curtas – bermudão -, e meia três-quartos. Minha mãe arrumou uma costureira que fez um terno com calças compridas de um dia para o outro. No dia seguinte pegamos o trem para São Paulo: eu, o Waldemar e meu pai. E de São Paulo fomos de ônibus para Santos.


Em Santos, o ônibus nos deixou na praia do Gonzaga. Eu vi o mar na minha frente e fiquei louco. Entrei na água de sapato e tudo para ver se a água era mesmo salgada. Era.


Um dia depois eu estava na Vila Belmiro no meio dos cobras. O Waldemar chegou para o Lula, técnico do Santos, para me colocar no treino com o time principal. O Lula me olhou e disse: ‘Não dá. Ele é muito franzino’. O Waldemar ficou lá insistindo e o Lula topou. De repente eu estava ao lado do Zito, Manga, Formiga, Vasconcelos, Urubatão, o Feijó, um lateral-esquerdo excelente, todas aquelas feras. Peguei umas três bolas. Em uma delas dei um drible seco no Formiga, que era da Seleção. E isso impressionou o Lula. Estava me sentindo bem no meio deles. Eram pessoas muito boas e o clima, de muita amizade. Eu sabia que eles bons mas não os conhecia. Em Bauru, a gente ouvia mais as emissoras de rádio do Rio de Janeiro. Conhecia jogadores do Corinthians e do São Paulo, mas não tinha muita informação sobre os do Santos.


Era novo, magrinho, e os mais velhos me tratavam bem. Como não tinha dinheiro, não gostava de jogar buraco nem sinuca. Ficava lá falando com um e outro. O Tite, que tocava em bares, começou a me ensinar violão. Quando eles estavam jogando baralho eu prestava alguns favores em troca de umas moedas. Ia comprar café, cigarro, buscar revista na esquina. Dormia no beliche lá mesmo na Vila. Já na primeira semana o Vasconcelos chegou e me disse: ‘Você tem futuro, garoto. É só se dedicar’.


(Pelé, que faz 66 anos em 23 de outubro) interrompe o depoimento e diz que fica emocionado quando se lembra daqueles primeiros dias no Santos. “São as melhores recordações da minha vida. Mais do que quando cheguei à Seleção Brasileira.” E diz que não vai se esquecer, hoje, de fazer uma oração pela alma de companheiros que já se foram: Tite, Vasconcelos, Manga…)


A vida por um pênalti


“Depois de uns dois meses de Vila Belmiro eu já estava aclimeratado em Santos. Mas se tem alguém de quem me lembro com carinho e foi responsável pela minha permanência lá é o Sabuzinho, que cuidava dos jogadores mais novos. O Sabu era o roupeiro e o Sabuzinho, o irmão dele, cuidava dos jogadores e cozinhava para a gente.


O Santos me escalou para a final do campeonato infanto-juvenil contra o Jabaquara. O Santos queria muito esse título. Perdi um pênalti. O Fininho, depois preparador de goleiros no Santos, pegou e o Jabaquara foi o campeão. Fiquei com muita, muita vergonha. Não sabia onde enfiava a cara. À noite, resolvi que ia voltar para Bauru e desistir do futebol. Estava convencido de que era o melhor. Mas o Sabuzinho me segurou. Disse que só sairia da concentração com autorização assinada da diretoria porque era menor de idade. No dia seguinte todo mundo me incentivou a ficar.


Se eu tivesse saído da concentração naquela noite, acho que seria o fim. Além do que, na época, isso seria considerado uma indisciplina grave, que prejudicaria muito a minha carreira. Era possível que o Santos nem me aceitasse de volta. Em minhas orações também vou lembrar do Sabu e do Sabuzinho.


“Desde então só tenho de agradecer a Deus por tudo que o futebol me deu. Às vezes, quando estou em Santos com minha mãe Celeste com seus 81 anos, pergunto para ela: ‘Então, mãe, você ainda acha que fiz besteira em largar os estudos em Bauru para jogar futebol?’.”


CASTILHO DE ANDRADE
 


 

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